terça-feira, 11 de outubro de 2016

minimalismos

[liberdade]
andar na contramão
e ignorar todos os sinais

--

[black]
pintar de preto
tudo o que precisa
ser xxxxxxx esquecido

--

[não]
não me olhe
nos olhos mais
não me veja
não me queira
mais
não posso
com você

--

[grito]
quantas vezes
preciso ficar
em silêncio
até você me ouvir?

--

[almoço inútil]
comer sem apetite
e entre lágrimas

--

[pecado frugal]
chorar sobre o
prato de bolonhesa
sem queijo

--

[cegueta]
não deixa de ser curioso
meu olho doente,
quase fechado,
me perguntando:
afinal, o que você (não)
quer ver?

--

[surda]
faço o que com essas músicas todas
que não vou conseguir te mostrar?

sábado, 8 de outubro de 2016

não posso

deixei quase tudo pela metade. você me interrompeu. e foi desde a primeira vez. desde a primeira vez que eu coloquei os olhos em você eu já sabia. mas como posso explicar?

domingo, 10 de julho de 2016

Seres semelhantes

Foi naquela noite, enquanto eu subia a rua, olhando para o chão com as pálpebras pesadas, tentando não pensar em nada mas inevitavelmente conversando com as tags pelos muros e os padrões geométricos do chão, que tive uma impressão assustadora. As pessoas que passavam por mim descendo a rua no sentido contrário pareciam todas iguais. Homens, mulheres, independente de gênero e cor, todos pareciam absolutamente iguais. A parábola da minha história tornava-se real de uma maneira surreal. Já fazia um tempo que eu reparava nisso, na verdade. Já fazia um tempo que as pessoas todas que eu conhecia assemelhavam-se. Inclusive as pessoas novas, que eram praticamente cópias das pessoas mais antigas.

[24 de março de 2016]

epifania

por duas vezes essa semana você me ligou no meio da madrugada e eu não atendi. mas isso me fez sorrir de manhã.

desde domingo algo mudou completamente. foi como a queda de um muro e a ruína de muitas incertezas. novos horizontes que apareceram através dos escombros.

desde segunda fico tendo esses flashbacks. a luz avermelhada que tinha a noite. o ar tão frio que quase molhava a pele. o chão cheio de vestígios. as vozes ao longe, fade out no meio da bruma e da escuridão, morcegos voando, o som metálico que ecoava dos arcos atingidos pelo kraftwerk.

de lá pra cá, entre palavras, onomatopéias e desencontros, penso sobre o sincronismo sincero do acaso. não há nada como essa epifania.

domingo, 26 de junho de 2016

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Como curar a nostalgia de um amor que acabou

amores, empregos, contratos... tudo um dia acaba.
você pode achar bonito dizer que o amor é infinito. e ele pode ser. mas amores também acabam.
às vezes não acaba aquele sentimento profundo, aquela vontade imensa de mergulhar no outro e deixar aquele resto de paixão inflamável queimar até não restar mais nada. morrer junto, se for o caso, mas acabar com aquilo que nem faz mais sentido mas ainda faz sofrer.
não adianta. é sempre triste um amor quando acaba.
primeiro que o fim nunca é tão bom quanto o começo, já dizia aquela canção.
ainda que o fim traga alívio, pois leva com ele muitos dos problemas que, na verdade, levaram a ele, o fim significa dar, finalmente, aquele salto no escuro que é começar tudo de novo. e sozinho.
dar-se conta de que ninguém pode fazer por você aquilo que você mesmo não está conseguindo fazer, nem com a ajuda do outro. encarar de frente o ciclo da vida se renovando mais uma vez, queira você ou não.
talvez por isso terminar uma relação seja tão difícil e doloroso - um romance, um namoro, uma amizade... - você começa a deixar pedaços pelo caminho. sua vida começa a ser muito diferente do que ela era antes daquela pessoa existir. não é fácil lidar com todas as mudanças que uma ausência traz.
por muito tempo acreditei que terminar bem relacionamentos garantiria uma certa paz de espírito e sustentaria, de alguma maneira, aquela ligação positiva que, afinal, foi tão intensa enquanto durou. mas isso não é necessariamente verdade. a verdade é que as pessoas são sensíveis às mudanças e à passagem do tempo. num dia você é uma pessoa ótima, mas basta um deslize ou alguma peça nova no tabuleiro para que você se torne um completo idiota e tenha a porta fechada com força na sua cara. ou para que você mesmo se veja obrigado a fechar a porta com força na cara de alguém. faz parte. segue o jogo.
e como o jogo não é linear e não tem regras, às vezes você pega um embalo positivo e começa seu novo ciclo cheio de energia, caminhando para frente e de cabeça erguida. mas existem também aqueles dias, em que coisas mínimas, reminiscências, trazem recordações cortantes. então cada célula do seu corpo se lembra de como eram cheiros, sabores, sensações, e a ebulição dos sentimentos começa a borbulhar tão forte que você sente o coração tão alto que você fica quase surdo, tonto, acha que vai explodir de tão intenso que é. você tem vontade de entender, de explicar o que é isso, que dói mais do que quebrar um osso. é isso saudade? não. saudade deveria ser uma lembrança boa, que traz conforto e alegria, não apenas dor. essa nostalgia que não conseguimos nomear direito, na verdade é uma ilusão, vontade de viver de novo, de sentir de novo aquilo que já não existe mais. e que nunca mais existirá, não adianta insistir.
fazer esse exercício, de descer lá no último metro do seu interior, é o primeiro passo para se curar pra valer de um amor que você ainda quer, mas tem certeza que acabou. e se acabou, não tem mais o que fazer. você tem que chorar todas as lágrimas que precisar, gritar, espernear se for o caso, depois dormir um sono bem profundo, descansar muito, se recuperar da exaustão que é perder algo que foi tão importante. e depois tem que acordar, respirar profundamente e ainda que se sinta lá no fundo, lembrar que quanto mais no fundo estamos, maior o impulso que podemos pegar rumo à superfície.
é claro que falar é muito mais fácil do que praticar. para muitos, o exercício tem que ser repetido muitas vezes. para outros, a eternidade é o limite.
tenho pra mim, porém, que cada peixe nada no seu ritmo. na cultura japonesa, a simbologia da carpa subindo o rio tem a ver com desejos que queremos alcançar, enquanto a carpa descendo, com seus desejos atendidos, prepara-se para fazer tudo de novo, do contrário, sabe como é, peixe parado é peixe morto.
não há fórmula para curar a nostalgia de um amor que perdemos no tempo. mas há um conforto em saber que ele existiu e se o tempo levou, é porque todas as coisas um dia acabam para que outras novas possam começar. e o começo é sempre mais legal que o fim.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

palavras servem pra isso

nesse borbulhar de palavras incandescentes
me encontro nua, perdida, indecente
despida de toda pergunta e prerrogativa
coberta de caos e vergonha do presente

como podem os verbos mudarem sem avisar
como esse relógio de ponteiros pontudos
a apontar a hora corrida com sua tarifa
desfazendo todos os acordos, as rimas
não rimos mais como antes

apago as luzes ou fecho as cortinas
porque a beleza do dia é uma bofetada
nos despedimos mais uma vez num abraço
com beijos secos e temerosos e tímidos
e dizemos aloha a outro dia, outro mês
a vida passando em alta velocidade
e você caindo do patinete

patinete, patela, palito e paletó
palavras patetas me fazem sorrir
palavras servem pra isso