domingo, 10 de julho de 2016

Seres semelhantes

Foi naquela noite, enquanto eu subia a rua, olhando para o chão com as pálpebras pesadas, tentando não pensar em nada mas inevitavelmente conversando com as tags pelos muros e os padrões geométricos do chão, que tive uma impressão assustadora. As pessoas que passavam por mim descendo a rua no sentido contrário pareciam todas iguais. Homens, mulheres, independente de gênero e cor, todos pareciam absolutamente iguais. A parábola da minha história tornava-se real de uma maneira surreal. Já fazia um tempo que eu reparava nisso, na verdade. Já fazia um tempo que as pessoas todas que eu conhecia assemelhavam-se. Inclusive as pessoas novas, que eram praticamente cópias das pessoas mais antigas.

[24 de março de 2016]

epifania

por duas vezes essa semana você me ligou no meio da madrugada e eu não atendi. mas isso me fez sorrir de manhã.

desde domingo algo mudou completamente. foi como a queda de um muro e a ruína de muitas incertezas. novos horizontes que apareceram através dos escombros.

desde segunda fico tendo esses flashbacks. a luz avermelhada que tinha a noite. o ar tão frio que quase molhava a pele. o chão cheio de vestígios. as vozes ao longe, fade out no meio da bruma e da escuridão, morcegos voando, o som metálico que ecoava dos arcos atingidos pelo kraftwerk.

de lá pra cá, entre palavras, onomatopéias e desencontros, penso sobre o sincronismo sincero do acaso. não há nada como essa epifania.

domingo, 26 de junho de 2016

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Como curar a nostalgia de um amor que acabou

amores, empregos, contratos... tudo um dia acaba.
você pode achar bonito dizer que o amor é infinito. e ele pode ser. mas amores também acabam.
às vezes não acaba aquele sentimento profundo, aquela vontade imensa de mergulhar no outro e deixar aquele resto de paixão inflamável queimar até não restar mais nada. morrer junto, se for o caso, mas acabar com aquilo que nem faz mais sentido mas ainda faz sofrer.
não adianta. é sempre triste um amor quando acaba.
primeiro que o fim nunca é tão bom quanto o começo, já dizia aquela canção.
ainda que o fim traga alívio, pois leva com ele muitos dos problemas que, na verdade, levaram a ele, o fim significa dar, finalmente, aquele salto no escuro que é começar tudo de novo. e sozinho.
dar-se conta de que ninguém pode fazer por você aquilo que você mesmo não está conseguindo fazer, nem com a ajuda do outro. encarar de frente o ciclo da vida se renovando mais uma vez, queira você ou não.
talvez por isso terminar uma relação seja tão difícil e doloroso - um romance, um namoro, uma amizade... - você começa a deixar pedaços pelo caminho. sua vida começa a ser muito diferente do que ela era antes daquela pessoa existir. não é fácil lidar com todas as mudanças que uma ausência traz.
por muito tempo acreditei que terminar bem relacionamentos garantiria uma certa paz de espírito e sustentaria, de alguma maneira, aquela ligação positiva que, afinal, foi tão intensa enquanto durou. mas isso não é necessariamente verdade. a verdade é que as pessoas são sensíveis às mudanças e à passagem do tempo. num dia você é uma pessoa ótima, mas basta um deslize ou alguma peça nova no tabuleiro para que você se torne um completo idiota e tenha a porta fechada com força na sua cara. ou para que você mesmo se veja obrigado a fechar a porta com força na cara de alguém. faz parte. segue o jogo.
e como o jogo não é linear e não tem regras, às vezes você pega um embalo positivo e começa seu novo ciclo cheio de energia, caminhando para frente e de cabeça erguida. mas existem também aqueles dias, em que coisas mínimas, reminiscências, trazem recordações cortantes. então cada célula do seu corpo se lembra de como eram cheiros, sabores, sensações, e a ebulição dos sentimentos começa a borbulhar tão forte que você sente o coração tão alto que você fica quase surdo, tonto, acha que vai explodir de tão intenso que é. você tem vontade de entender, de explicar o que é isso, que dói mais do que quebrar um osso. é isso saudade? não. saudade deveria ser uma lembrança boa, que traz conforto e alegria, não apenas dor. essa nostalgia que não conseguimos nomear direito, na verdade é uma ilusão, vontade de viver de novo, de sentir de novo aquilo que já não existe mais. e que nunca mais existirá, não adianta insistir.
fazer esse exercício, de descer lá no último metro do seu interior, é o primeiro passo para se curar pra valer de um amor que você ainda quer, mas tem certeza que acabou. e se acabou, não tem mais o que fazer. você tem que chorar todas as lágrimas que precisar, gritar, espernear se for o caso, depois dormir um sono bem profundo, descansar muito, se recuperar da exaustão que é perder algo que foi tão importante. e depois tem que acordar, respirar profundamente e ainda que se sinta lá no fundo, lembrar que quanto mais no fundo estamos, maior o impulso que podemos pegar rumo à superfície.
é claro que falar é muito mais fácil do que praticar. para muitos, o exercício tem que ser repetido muitas vezes. para outros, a eternidade é o limite.
tenho pra mim, porém, que cada peixe nada no seu ritmo. na cultura japonesa, a simbologia da carpa subindo o rio tem a ver com desejos que queremos alcançar, enquanto a carpa descendo, com seus desejos atendidos, prepara-se para fazer tudo de novo, do contrário, sabe como é, peixe parado é peixe morto.
não há fórmula para curar a nostalgia de um amor que perdemos no tempo. mas há um conforto em saber que ele existiu e se o tempo levou, é porque todas as coisas um dia acabam para que outras novas possam começar. e o começo é sempre mais legal que o fim.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

palavras servem pra isso

nesse borbulhar de palavras incandescentes
me encontro nua, perdida, indecente
despida de toda pergunta e prerrogativa
coberta de caos e vergonha do presente

como podem os verbos mudarem sem avisar
como esse relógio de ponteiros pontudos
a apontar a hora corrida com sua tarifa
desfazendo todos os acordos, as rimas
não rimos mais como antes

apago as luzes ou fecho as cortinas
porque a beleza do dia é uma bofetada
nos despedimos mais uma vez num abraço
com beijos secos e temerosos e tímidos
e dizemos aloha a outro dia, outro mês
a vida passando em alta velocidade
e você caindo do patinete

patinete, patela, palito e paletó
palavras patetas me fazem sorrir
palavras servem pra isso

sexta-feira, 15 de abril de 2016

monólogo memorável

sobre as conversas que não tivemos, tenho memórias rebeldes e estáticas. elas se congelam, como num ásana, e ficam tão paradas no tempo e no espaço, que já não sei o sentido que tinham.

todos os dias meu passado fica mais distante e não existem outros tempos verbais além do presente. mas como uma afronta à esta verdade, tão inquestionável e notoriamente provável, quando o dia arrefece, o futuro aparece inesperado, adiantado, à espreita do momento oportuno para importunar.

engoli todas as palavras que não consegui cuspir no último tiroteio. te matei quando acertei em cheio cada letra disparada para me despedir. mas não consegui escapar. morri também. e agora para sempre me arrasto como um vampiro faminto, a viver de sombras mesmo no mais ensolarado dos dias.

são as palavras mais amargas e sórdidas, aquelas que ninguém ousa usar, que me sobram. porque já usei todas as palavras boas, doces e amadas. elas estão escassas. não é tempo.

jamais te neguei o amor. mas minhas palavras você nunca mais vai ouvir.

terça-feira, 5 de abril de 2016

maribélula da madrugada




no azul intenso da manhã a maribélula passou
diante do meu nariz, à espreita do dia na janela,
levando todo o peso do mundo em suas asas
fortes, fartas e únicas