sábado, 20 de janeiro de 2018

Palavras de sobrevivência


Caminhei até meus pés doerem muito. E foquei nesta dor, porque não aguentava mais sentir aquela que me latejava pelas artérias e me impedia até de respirar.

Caminhei sobre as palavras de fel que ouvi, que falei, que me cobriram de vergonha e arrependimento e que nunca mais deixarão de existir, mas não têm mais sentido porque ficaram para trás e este é um lugar para o qual não voltamos.

Bati a porta quando saí. Acho que foi para ter certeza de que não a abriria mais. Depois desci pela contramão e me dei conta de que ir tão veloz pelo sentido contrário não iria adiantar nada. Mas eu fui mesmo assim, porque este foi o único caminho que me pareceu possível.

A miséria que cresceu dentro de mim e explodiu como lava foi o que me arrastou e devastou tudo ao redor. A miséria da alma diante do tempo inexorável marcando o tique taque da bomba relógio. – me diz, como você consegue ficar nessa frieza impassível depois de ver tanta miséria, mesmo tendo sido salvo, mesmo tendo sobrevivido ao frio, à fome e à tristeza inexplicável de ter perdido pedaços?

Não é curioso que toda essa força e poder absurdos que você enxergou em mim tenham o magnetismo das pedras? – atraem, mas confundem a bússola e te fazem perder o rumo.

Meu corpo, essa nau à deriva, ia afundar e você me salvou. Mas me lembrou todos os detalhes sórdidos do colapso e me desafiou a viver sob este fardo das memórias em migalhas com peso de toneladas – como posso continuar na superfície com todo esse lastro?

Tirei então as pedras do bolso e parti sem olhar para trás. Caminhei até meus pés doerem muito, não porque tinha que chegar a algum lugar, mas porque apenas precisava ir. Precisava muito.

Eu não sei como você se sentiu me vendo partir. Acho que foi um alívio, na verdade, porque depois de tudo quase ir pelos ares, o silêncio deve ter sido tão imenso, e tão intenso, que a paz deve ter sido até perturbadora.

Caminhei sobre o meu silêncio também, tentando não ouvir o dia na iminência de romper, tentando esquecer tudo e não escutar mais nada além das batidas do coração sem pace.

Quando vi o céu ficando violeta houve esse instante então, em que o caminho ficou cheio de formas e dragões e palavras sem sentido – caminhei tanto que alucinei.

Sobreviver às catástrofes, à arrogância, à ausência, aos fatos surreais que se desencadeiam de repente, sobreviver àquela miséria é o que me fez caminhar.

Quando meus pés doeram e eu tive certeza de que não podia mais seguir, eu andei um pouco mais. Eu precisava muito ir adiante. Eu precisava encontrar outras palavras, essas que se escondem no movimento e não na linha de chegada.

A exaustão que tomou conta de mim foi o que me fez acreditar e não desistir. As palavras de sobrevivência começaram a cair ao meu redor, como boias salva-vidas – não foi deus quem me salvou, eu me salvei (ouvi sua voz me dizendo isso e me lembrei dos seus olhos escuros, procurando meu estado de choque ao discordar da minha resposta) – isso não é divino?

Somos divinos, mas mortais. O destino é infinito, nós não. É preciso caminhar...

Abracei a vida quando cheguei. Me deitei devagar e meu sono foi velado. Estar só pode ser o melhor ou o pior a te acontecer. É preciso sobreviver à verdades óbvias como essas também.

Não te desejo nada além daquela imensidão que inspirou a sua caminhada. Ter esses encontros brutais e conseguir se levantar e continuar andando... – é um duro golpe que eu não consiga expressar o quão bonito foi te ouvir falar dos seus passos e espaços.

Eu queria me desculpar por ter tido que partir com tanta violência. Eu queria poder te dizer que nada disso é culpa sua – mas como posso querer te explicar o que eu não posso entender?

Eu tentei compartilhar o que existe de melhor em mim, e sobreviver a tudo de pior que existe em mim e que você conheceu tão profundamente sem nem saber porque.

Nossa colisão não sei explicar. Deve ter sido mesmo o magnetismo das pedras. Naufrágio inevitável, desnorteante. A vida pulsando com tanta força que transborda, golpeia, deixa escoriações e quase afoga.

Eu queria te dizer muitas outras coisas. Mas eu precisei partir. Eu sobrevivi mais uma vez. As palavras me resgataram. Eu queria poder te contar, mas algo me impede – não é orgulho... é que palavra nenhuma justifica ou absolve todos os pecados que cometemos de uma vez, em tão pouco tempo.

Sobreviver às vezes parece tão desumano... para continuar indo adiante às vezes é preciso sair assim, dessa forma desabalada, arrasando tudo pela frente, feito tempestade.


Como herança, a lembrança daquele arco-íris. Um momento fugaz da beleza óbvia que tivemos e não pudemos conservar. Todo o resto vou esquecer. Inclusive você. Só assim é possível. Foi o deus do submundo quem me contou – para sair daqui, caminhe na direção daquela luz. Tudo o que você precisa vai te seguir. Mas jamais olhe para trás durante a caminhada. Se você olhar para trás, vai perder tudo, inclusive o que mais ama. E o que não te acompanhar, você vai esquecer.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

domingo, 15 de outubro de 2017

Obsessão meditativa


Ela nunca havia se preocupado em conter as obsessões. Na verdade, não tinha controle algum sobre elas. Ao invés de antever as crises, ela tinha paciência. Para todo o resto na vida era passiva. Mas quando se encantava com algo ou alguém, pronto, focava no alvo como uma seta, e perseguia o cerne do seu objeto de afeto como água atingindo a terra. Exauria-se com o assunto. Decepcionava-se com as pessoas. Tudo e todos têm falhas, obviamente. Pensava nisso obsessivamente, enquanto dava-se conta de que o pensamento mântrico também tem um quê de obsessivo em rua repetição eterna. Sentia-se mais louca do que nunca. E cada vez mais pronta para ser monge.
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sexta-feira, 17 de março de 2017

triângulo trágico

no meio da pista escura e cheia de fumaça eles se encostaram e saiu uma faísca.
- como é seu nome?
- desdêmona.
- mentira!
- é sim.
ele morreu de rir e ela se incomodou.
ele se explicou:
- meu nome é iago... quais são as chances?
ela notou que ele estava com um amigo.
- e seu amigo?
- otávio!