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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Talvez

O farol abriu, ela engatou a primeira e foi. Plant se esgoelando no rádio, dazed and confused. Virou à direita depois da praça. O carro ia sozinho, como se nem houvesse esforço dela. O caminho de todos os dias. E ela ia tranquila. Os óculos escuros escorregavam para a ponta do nariz e ela empurrava para cima, de dois em dois minutos. A música misturada com o ritmo lento do trânsito, a falta de atenção pras coisas, o dia lá fora sem nenhum esforço, provocaram nela uma sensação engraçada. Uma coisa entre o sono e a embriaguez. Paz, talvez.

Stormy Weather

Aquelas notas arrancavam de mim mais do que eu sabia ser possível sentir. Não achei que fosse tão longe. Não achei haver existência para tamanho vácuo. Um buraco negro no universo. No meu universo. Assustador. E nem sei por que temer algo que nem posso entender. E não há como saber onde acaba, se é que acaba. Acho que é como tudo na vida. Não acaba, apenas vira outra coisa.

Mulher amada

Ela prendeu os cabelos. E ele odiava quando ela fazia isso. Ela passou a língua pelos lábios cheios de um brilho pegajoso. Ele odiava aquele brilho pegajoso. Ela ajeitou o brinco na orelha e seu esmalte vermelho refletiu o sol. Ele odiava suas unhas vermelhas. Ela pegou um cigarro, deu um pra ele e esperou que ele acendesse ambos. Ele odiava vê-la fumar. Acendeu os dois cigarros e a olhou através da fumaça entre eles. E se deu conta de que não havia criatura mais perfeita no mundo do que ela.

Ninguém

Aquela sensação de que o mundo pode esperar, sabe? Uma garrafa de vodca ali. Talvez mais tarde. O dia aqui na janela, insistindo em acontecer. As horas passando, aceleradas, mas que diferença faz? Não há ninguém na casa ao lado. O silêncio é enlouquecedor. No espelho, os olhos borrados de ontem. A alma ainda manchada e perdida. E assim começamos outro dia vazio.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Silêncio

Esse silêncio está me consumindo. Me sinto sumindo, desaparecendo, carecendo de algo que não sei o que é. É como um barulho branco, desses de geladeira, de ventoinha, que incomodam dissimuladamente, sem que você perceba, sem que você tenha idéia de que há um incômodo, até que você ouve. E aí sua vida passa a ser um inferno. Esse barulho (ou esse silêncio?) nunca mais vai sair dali porque agora você sabe que ele está ali.