segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Não sou

Não sou quem você pensou
Não me desculpo
Não me culpo
Não sou quem você precisa
Não precisa
Você não precisa
Não é fácil como as coisas são
Como as coisas estão
Como podemos ser
Não é fácil ter
O que temos
E ao mesmo tempo não podermos
Expô-las sem expormo-nos
Sem escomungarmo-nos
Porque o que somos
É vil

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Câmera lenta

Viu a cena acontecendo em câmera lenta. A rajada de vento frio entrou feroz pela janela, espalhou os papéis e fez o vaso delicado espatifar-se sobre a mesa de mármore, atirando com violência exagerada as angélicas pequeninas ao chão, misturadas com drama aos cacos de vidro molhados e disformes, um caos que fez seu coração disparar. Que bom era sentir o coração disparando outra vez. Mesmo em câmera lenta.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Amor que vive

Eu queria sentir por você uma coisa calma. Eu queria construir tudo com tempo e delicadeza. Queria que fosse tudo devagar, para absorver aos poucos, para aprender por etapas, para que os planos chegassem aos pouquinhos e se realizassem na velocidade média do relógio - sem ansiedades, atropelos, desesperos, noites mal dormidas. Ou interrompidas. Queria que fosse sem dor, sem decepções. Queria emoções suaves, verdadeiras, mas estáveis.

Meu amor, idealizo assim: um passo de cada vez; capítulos bem escritos, palavras bem medidas, melodias simples e poderosas.

Mas meu amor, realmente, não pode ser assim. Não sei ser devagar. Como devagar, bebo devagar e há muitas coisas que gosto e consigo fazer devagar. Mas amar, não. Amo depressa. Amo com a pressa de quem tem muita sede ou muita fome. Quero virar o copo, quero comer o prato inteiro de uma vez. E quero mais. E mais. E mais. Quero dormir e acordar amando. Quero perdão todos os dias. Quero tesão todos os dias. Quero o frio na barriga o tempo inteiro. Não importa que isso seja difícil, impossível até. Quero assim. Não quero fim. Quero mais. Quero inteiro. Quero tudo. Quero que me queiras, que não viva sem mim, que se importe, que me corteje, que cuide, que me conte histórias, que leia para mim, que me pegue no colo, que me ponha para dormir. Que me ame depressa também. Que não me sufoque, mas que me beije até me tirar o ar. Quero compartilhar seu ar. Quero que você me respire. Que me inspire. Que eu te inspire. E que você me veja como eu sou.

Eu queria te amar com calma e tempo, de maneira adulta e coerente. Mas não posso. Meu amor é doente, urgente, não pode ser contido, disfarçado, reprimido. Meu amor é selvagem e nasceu para correr até cansar. Não posso domesticá-lo nem eternizá-lo. Meu amor nasceu livre. Ele é complexo, raro, feroz. Há que se saber lidar com ele. Não que ele seja difícil, mas como tudo o que é imprevisível e bravo, há que se saber lidar; há que se saber que não há como domar, querer que ele seja como queremos que ele seja. Meu amor é o que é, na hora em que quer, na velocidade que consegue ser. E confesso que até queria que ele pudesse ser diferente, que eu pudesse moldá-lo ao ideal e ao conforto do que costuma ser a medida dos amores por aí, mas admiro e aceito como ele o é. Meu amor não nasceu para esperar; nasceu para amar de maneira ilícita, explícita. De outra forma não ama, sofre. De outra forma não vive, morre.

Cura

Sentiu-se ofendido com o que ela dizia. Sentiu-se ferido com sua dureza impiedosamente despejada na sua frente, de forma escancarada para quem quisesse ver. Sentiu-se exposto e diminuído. Sentiu-se ridículo. Lembrou-se do quanto somos ridículos ao amarmos de maneira incondicional mesmo aqueles que têm uma capacidade infinita de nos ferir com apenas uma palavra de desamor. Sentiu-se desarmado, encerrado. Mas disposto então a recomeçar. A cura às vezes é longa e o perdão um remédio amargo que temos que tomar com esforço e esperar com fé até que a febre baixe e possamos sorrir novamente.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Melhor

Não há melhor. Não há igual. Não há porquê, nem portanto. Não é porque quero ou porque posso ou porque acontece de ser assim. Acontece e pronto. E só por isso vou te dizer mais uma vez: não é por isso que te amo. Não é. E eu, na tentativa de sempre explicar tudo, me esqueço. Mas não me esqueço que não é por isso. Te amo só porque te amo. Te amo porque isso faz de mim alguém melhor. E só.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Simples ou não

Não me sobrou nada para acreditar. Não me sobrou dúvida para contestar, nem contentar o que tentava equecer; o que eu disfarçava ser menor, o que eu supunha distante, disforme, incerto e improvável. Mas não. Não complique: é tudo tão simples. Não complique - nunca vai ser simples. Têm coisas que são apenas assim. Simplesmente complexas.

sábado, 2 de outubro de 2010

Invasões bárbaras

Tens permissão. Não precisa bater, a porta está aberta. Estamos prontos para a invasão. E ao mesmo tempo não estaremos prontos nunca. É como a chuva que cai com mais força do que supúnhamos: vira o guarda-chuva ao contrário, molha mais do que devia, incomoda. Mas é bom. Traz ventos novos, cheiros novos, inicia outros ciclos. Então deixemo-nos invadir de forma bárbara. Há brutalidade e delicadeza em tudo. Temos apenas que permiti-las.