terça-feira, 10 de novembro de 2009

Bem me quer, mal me quer

Não é verdade. Não pode ser verdade. Como pode ser possível que eu goste tanto de você a ponto de gostar mais de você do que gosto de mim mesmo? Como pode ser verdade que seu desprezo doa mais do que aquela vez em que quebrei a perna em 3 lugares? Como algo que não sangra pode doer tanto? Pensando bem, acho que eu não gosto de você tanto assim.

domingo, 8 de novembro de 2009

Kouve

'Odeio pessoas', ele pensa ao ver aquele povo todo se acotovelando por um minúsculo pedaço de chão para ficar diante do palco. PJ Harvey entra de guitarra em punho e na metade do primeiro acorde de Big Exit ele se vê perdido, fora do chão, parte da massa humana que flutua sob o comando da deusa com cara de pato que está no palco. Baby, baby ain't it true. I'm immortal when I 'm with you.

4 acordes

Ela entra na loja de guitarras, tattoos cobrindo os dois braços, todos olham e ela não está nem aí. Pega uma estratocaster vermelha (vermelha, claro) e dedilha "Where is my mind". 'Dá pra ser mais óbvia?', ele pensa ao observá-la. Ela se aproxima e pergunta 'se eu fosse comprar, quanto custaria?'. Ela sai da loja com a guitarra na mão. Ele nunca mais a vê. E nunca mais a esquece.

A fuga

Bateu a porta com força ao sair e nem olhou para trás. O mundo estava ali diante dele e tudo o que ele conseguia pensar era porque não havia conseguido fugir antes. As mulheres sugam a alma... comem sua energia de colher, junto com o mamão no café da manhã. Chega disso, ele pensou. Mas e agora? Cadê o plano B? Damn it. Era ela quem fazia os planos...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Me recuso

Me recuso.
Me recuso a aceitar a dependência de você. Não aceito que a vida só faça sentido se ela passar por você. Não admito que os dias cinzas sejam tão difíceis porque você não está aqui. E que os dias de sol sejam mais bonitos porque me lembram você.
É cruel, e eu prefiro assim, trancar o peito e não deixar você nele. Porque você me faz tão bem quanto me faz mal. E eu não preciso do seu mal. Eu já tenho o meu.
O tempo que te afasta é o mesmo que te traz pra mim. E me faz andar em círculos. E me paralisa. E me toma de assalto de um jeito que eu não respiro, nem durmo, nem como, nem penso em mais nada que não passe por você. E você? Você segue o calendário, como se ninguém existisse. Você passa pelo outono sem deixar que as folhas amarelas te provoquem qualquer tipo de emoção.
Você não me serve. Você não cabe em meu altar. Você não pode ser adorado, cuidado, servido. Você não pode deixar de fazer sentido. Você não pode deixar de acordar cedo amanhã.
E eu planejo de todas as formas. Penso em como me livrar de você. Desejo ardentemente que meu peito bata com calma e sei que isso só será possível quando não mais houver traços seus nele.
Briga inútil. Destino fútil esse seu. O de estar condenado a ser amado assim. E nem ao menos saber que tal amor existe. Que ele vai perecer aqui. Porque me recuso que ele seja seu.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Segunda

Hoje acordei desanimado. Não quero falar com ninguém. Não quero ninguém falando comigo. O mundo está feio e quero que ele se exploda. Não quero trabalhar. Que o trabalho se foda. Vou ligar praquele mala e dizer que hoje não vou. Aliás, vou ligar nada. Amanhã eu invento qualquer coisa. Isso, se eu for amanhã.

Vamos ver como esse dia passa. Eu vou é ficar por aqui. Não quero sair dessa cama. Não quero nada com nada. O que tem lá fora? O que esse mundo cão pode me oferecer? Eu estou de saco cheio. Não tem nada pra me animar. Não amo ninguém, ninguém me ama. Não tenho vontade de amar. De que me serve isso? As pessoas são só pessoas. Mesquinhas, fracas, egoístas. Ninguém abre o coração. Ninguém dá a cara pra bater. Porque eu então?

Tô cheio disso. Não quero mais. Fico procurando dentro de mim um motivo pelo menos. Um motivo só. Essa cama me parece tão grande. Esse mundo me parece tão grande. E eu me sinto tão pequeno.

Vou ficar por aqui. Pelo menos debaixo desse cobertor, ninguém vai me encher o saco. Ninguém vai ficar me cobrando, me fazendo pressão. Ninguém vai ficar me dando ordens. Ninguém vai vir me dizer o que eu não quero ouvir. Ninguém vai mais me desapontar.

Se eu ficar aqui, bem quieto, é capaz de ter alguma paz. Se eu não falar com ninguém, quem pode me responder mal? Se ficar bem quieto, ninguém vai notar. E de repente esse aperto no meu peito passa.

E se nada disso adiantar, vou cortar os pulsos. Vão todos chorar e perguntar porque será que eu fiz aquilo. Bando de imbecis hipócritas. Mas se essa for a solução, é isso que vou fazer.

Que horas são? Merda. Dez pras oito. Se eu chegar atrasado de novo o mala vai me matar.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O farol


O claro e o escuro resolveram brincar de roda. Cada um tinha sua vez. O claro era rápido e o escuro um pouquinho mais demorado. O claro, em sua rapidez, parecia pressionar o escuro. O escuro, em sua quase-lentidão, causava uma ansiedade de quando seria a vez do claro novamente. “Tudo tem seu tempo”, disse o escuro. “É verdade. Daqui a pouco será dia. E voltaremos a brincar de estátua”, respondeu o claro.